sábado, 3 de novembro de 2012

TANACETUM PARTHENIUM (TANACETO)


Tenho de admitir que sendo o tanaceto do mais fácil dos cultivos, o facto de o ver à solta onde não é desejado, dentro e fora do jardim e até mesmo pelo quintal fora, o vinha desvalorizando aos meus  olhos e passara a tomá-lo como mais uma das herbáceas selvagens a arrancar ou ignorar.
 
De passagem tomei-a por mais uma margarida. Ao tentar aproximar-me melhor da identificação, até para a distinguir das demais compostas que abundam no jardim, notei por exemplo a organização da flor em capítulos com cerca de 1,50 cm de diâmetro, as do círculo exterior de cor branca e liguladas e as do interior amarelas e tubuladas. 
 
Está florida entre junho e novembro, dura muito tempo mesmo após cortada e pode ser usada na composição de jarras em verde ou como flor seca.


Apresenta a folhagem verde-amarelada, muito próxima da dos crisântemos: alterna, com ou sem pecíolo, recomposta, o limbo ovado ou obovado. Embora não seja muito comum, o chrysantemum cinerarifolium, por exemplo, dá uma inflorescência muito semelhante á deste tanaceto.  Não surpreende que o T. parthenium também seja conhecido por chrysanthemum parthenium.


No entanto, o tanaceto mais comum, é o T. vulgare (tanásia ou atanásia), bem distinto do T. parthenium e que pode ser encontrado junto a charcos ou restos de demolições. A flor daquele é amarelo-dourada e a folha profundamente recortada em folíolos serrados. Uma vez seca os antigos espalhavam-na por toda a casa para afastar bichezas da mais variada espécie ou usavam-na como planta medicinal.  
 
Os T. parthenium são pouco exigentes, a floração é abundante e adaptam-se bem a terrenos muito secos. Bem vistas as coisas, merece afinal o nosso cuidado.
 
Fotos destes últimos dias no quintal.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

ALDEIA MEMÓRIA IDENTIDADE


Hoje, ás 7 horas, o povo juntou-se na igreja para orar a Deus por vivos e mortos e peregrinou pelo cemitério da aldeia. Meia hora antes o toque dos sinos a finados apressava os mais lentos. A Liga Portuguesa Contra o Cancro recolheu esmolas.
 
 
Nenhuma manifestação social convoca mais povo. Nenhuma é mais antiga   e mais autênticamente vivida. Memória social e identidade: entre nós, vida e morte têm um forte componente social (uma família de luto, toda a aldeia de luto), para além do óbvio e duro impacto em cada um dos mais chegados. 
 
 
Findos os rituais, passos apressados, regressou-se à luta, ao trabalho, os rostos manifestamente aliviados.
 
Dor e prazer, finito e infinito, quase, quase se tocaram. Com orações, flores e espinhos, cumprimos uma vez mais o que era imperativo á consciência.
 
Sim, à nossa medida, rezámos e demos. Toscamente (quem sabe?) levámos flores, levámos luz de velas. As nossas vidas voltam mais densas, mais esperançadas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

RAPHANUS SATIVUS, (RABANETE) A FLOR


A raiz do rabanete é muito plástica e resulta bem quando talhada artisticamente para decorar mesas e pratos. Nessa modalidade é muitas vezes apresentada como flor aberta tirando partido das tonalidades vermelha da pele e branca do interior.
 
 
Não será tão vistosa como as conseguidas pela arte dos chefes de mesa mas, como tudo o que é natureza, situa-se noutro patamar de inesgotável complexidade mesmo quando a nossa leiga aproximação  a resume a uma aparentemente simples corola de quatro pétalas de unha comprida dispostas em cruz de nervação vincada.


As flores dispostas na planta em tamanho mais próximo do real. Optei por guardar algumas plantas para colheita de sementes ainda que as do comércio sejam baratas.


Fiquei surpreendido com a abundância de flores e frutos. As sementes são mais do que muitas. Não quero arriscar a sementeira  antes do fim das geadas embora o rabanete tenha fama de resistir bem ao frio. De qualquer modo o excedente de sementes caídas na terra fará o definitivo teste.

Fotos do outono de 2012, no quintal.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

No mar, no mar, no mar, no mar,


(...)
No mar, no mar, no mar, no mar,
Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas,
A minha vida!


 
Salgar de espuma arremessada pelos ventos
Meu paladar das grandes viagens.



Fustigar de água chicoteante as carnes da minha aventura,
Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência,
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis,
Meu ser ciclônico e atlântico,
Meus nervos postos como enxárcias,
Lira nas mãos dos ventos!

(...)

Extraído da "Ode Marítima" de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa.

domingo, 28 de outubro de 2012

DIGITARIA (MILHÃ)


Há dois anos, neste talhão do quintal, foram plantadas batatas. Este ano descansou.  Após as chuvas de outono a aqui chamada milhã invadiu quase tudo nas áreas há pouco cultivadas. O concurso com outras herbáceas é-lhe, porém, menos favorável noutras áreas do quintal com mais anos de repouso. Beneficiada pelo estrume sobrante?

Num quintal contíguo, há muitos anos abandonado, não se vê uma única destas plantas. Aí é a monotonia com o domínio quase absoluto de uma espécie de herbácea.
 
 
O caule é oco, separado por nós sólidos, e nele se inserem as folhas de forma linear que na base o envolvem com uma bainha seguindo-se a lígula e o limbo foliar. As flores nas inflorescências em forma de espiguetas, são  muito pequenas, sem corola, e são polinizadas pelo vento. Estas ervas de elevada densidade, têm uma produção de sementes elevadíssima que se conservam viáveis por muito tempo. Há 30 anos atrás, o destino desta gramínea era a alimentação do gado. Pertence ao género digitaria e à família das poaceae - mesma família do arroz, trigo ou do milho.
 
 
Ontem apliquei-lhe a roçadeira para "abrir caminho" até ao fundo do quintal, pois é desagradável que até ao meio-dia, pelo menos, nos molhem as calças com as gotas do orvalho ou da chuva. Aproveitei para limpar em torno dos canteiros ainda em produção. A palha irá ser incorporada no solo. 

Fotos dos últimos dias, no quintal.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

CUPHEA GRACILIS (FALSA-ÉRICA, CUFEIA)


Um pequeno tufo de humildes cufeias, revigoradas pelas últimas chuvas, vive em esplendor estes dias de outono antes que as geadas as reduzam a uns tristes e desolados raminhos  secos.
 
 
Mas, abaixo da superfície do solo, persistirá então a vida em longo letargo, adaptada, até que a toque a promessa de luz e amenidade da primavera. Despertará e novos rebentos irão por certo aparecer por entre os velhos raminhos secos do ano anterior.
 
Aí daremos uma ajuda cortando-os á tesoura para que não firam e não estorvem os rebentos juvenis.
 
Por agora, a cufeia parece iluminada. Aquele verde claro das folhas com as margens levemente retocadas a vermelho-acastanhado e que se inserem em caules deste mesmo tom, resplandece. As pequenas flores em forma campanulada, com o tubo da base raiado de vermelho, parecem absorver quanta luz podem, enquanto as folhas a espelham com magnanimidade.  
 
Uma pequena jóia, singularmente lapidada.
 
Fotos de ontem, no jardim.
 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

CORES DE OUTONO

 
O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai


                                               Haverá mesmo algum pensamento
                                               sobre essa noite? sobre esse vento?
                                                      sobre essa folha que se vai?


                                                                Cecília Meireles, Epigrama 9