quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

CECÍLIA MEIRELES, CANÇÃO


Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Cecília Meireles, "Viagem".



Foto Malema, outubro de 2012, no jardim.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

PEQUENO POEMA, SEBASTIÃO DA GAMA




Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.



Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


Sebastião da Gama, Serra Mãe, Pequeno Poema, 1945.

Fotos de 6 de junho de 2012, canteiro dos cactos, no jardim.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

ENTRETANTO, RUY CINATTI

Entretanto,
Após um longo sossego, após um longo silêncio monótono,
Após todos os ruídos quotidianos,
Após esforços vãos por atravessar mares de despeito,
E pontas de cigarros esquecidas no líquido negro das chávenas,
E desejos mortos à força de protestos e evasivas
Que os gestos supérfluos apagam num instante de raiva surda,
Uma longa inspiração saudável e animosa,
Como a de um náufrago que as ondas arrojaram à praia
E acordou no Paraíso.
 
 
 

Meu Deus, meu Deus!, a quanto mais
Estarei eu obrigado, se,
Vagabundo,
No mundo inumerável das estrelas
Procuro a tua estrela sem a encontrar.

De um lado gritam: Senhor!
Gemem, suplicam, gritam...
Do outro explicam, explicam o teu Nome.



De um lado a desordem. Oh!, por vezes
Se sente ali bater as asas da pureza.
Do outro a justiça, tão cheia de certeza...

Senhor!
Oh!, vamos rezar pela certeza,
Até que o amor de Jesus a purifique.
Oh!, vamos rezar
Por aqueles que, uma vez filhos de Deus,
Só a seu Pai visível reconhecem.
Senhor!, com o vosso amor já não distingo ...
........................................................................




.................................................................................
Senhor!
Senhor!, a Ti é dada a escolha,
E que os meus sorrisos, e as minhas lágrimas,
Indiquem os caminhos,
Onde eu e eles nos encontramos,
Encantados,
E perdidos...

Ruy Cinatti, Obra Poética, Nós não somos deste mundo, Entretanto, INCM, Lx. 1992, pgs 57-58.

domingo, 23 de dezembro de 2012

ALCEA ROSEA (MALVA-ROSA) na evocação do PRESÉPIO DE NATAL


Início da manhã com céu limpo e temperatura amena,  promessa do domingo que antecede este Natal. O outono é a primavera do inverno, terá dito o pintor Toulouse-Lautrec. Mas hoje mais parece inverno-primavera no inverno. Em qualquer caso, é tempo de advento, tempo de espera para viver em torno do presépio. 


Saudosismo? Não! Estamos decididamente orientados para o Futuro.
 
"Quando nos aproximamos intimamente do presépio, percebemos que o natal não precisa da família [reunida] ... a família é que precisa do Natal para ser Família." (José Rui Teixeira in Equinócio de outono.blogspot.pt)  

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

POLYGALA MYRTIFOLIA OU POLYGALA DALMAISIANA (POLÍGALA)


Originária da África do Sul, a polígala da família polygalaceae forma um espesso arbusto perene, de folhas persistentes, verde-escuras, ovaladas a elípticas, com cerca de 5 cm, semelhantes à folha da murta. A planta pode alcançar entre 0,50 e 1,50 m de altura.
 
A denominação latina, provinda do grego, significa abundância de leite e remete para a convicção dos criadores de gado de que a ingestão da planta pelos rebanhos induziria uma maior produção de leite.


Num primeiro relance, as flores da polígala parecem ter semelhanças com as da ervilheira, um legume entre nós muito comum da família  das fabaceae mas, na realidade, são bem diferentes. Mostram de facto duas asas (sépalas) bem abertas e uma quilha, mas não têm a pétala estandarte da ervilheira. E, caracteristicamente, exibem um vistoso penacho na quilha. Surgem entre março e outubro e estão organizadas em cachos ou rácimos simples, terminais, de cor violeta-magenta.

A flor tem 5 sépalas desiguais, sendo 3 pequenas e 2 grandes de finas nervuras em forma de asas. Estas, encostadas uma à outra, encerram em tamanho menor, as pétalas, estames (órgãos masculinos) e pistilo (órgãos femininos).  As pétalas estão soldadas em tubo. No plano inferior dispõem-se franjas finas donde surgem o alto do gineceu e o conjunto de 8 estames bífidos e muito destacados.
 
Nesta altura é fácil encontrá-las nos revendedores até dez euros por planta.  Exagerado preço, sim, pois é de fácil multiplicação. Dá-se particularmente bem no litoral. Mas adapta-se facilmente a qualquer solo em zonas temperadas. Cuidado com as geadas! 
 
Fotos de junho de 2012, na Barra, Ílhavo.
 
 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

ROSAS MINIATURA

 

Até ao fim, este ano vem sendo muito propício ás roseiras. Hoje trago fotografias de uma roseira miniatura, com cerca de 36 cm de altura, já há alguns anos bem adaptada ao jardim. Na foto de cima a rosa tem cerca de 2 cm de diâmetro.

 
Aqui, totalmente aberta, o diâmetro é de 3 cm. Esta foto é do passado dia 16. É espantoso como a flor resistiu tão bem á chuva, por vezes forte, destes últimos dias.
 
 
Esta roseira, como outras semelhantes aqui no jardim, cultivadas ao ar livre em plena terra, florescem todo o ano. É certo que as flores são pequenas, não muito abundantes e também não é grande a envergadura da planta. As folhas são também pequenas, muito próximas do tamanho nas roseiras dos silvados naturais. As cores são muito suaves.
Somemos a notável resistência ao tempo e ás doenças e a possibilidade de as cuidar envasadas até no interior da casa e teremos todas as razões para as incluir no roseiral.  
 
No entanto, não se devem confundir com outras, mais anãs que miniatura, de muitas e atraentes flores, vendidas em vaso nos espaços comerciais, em dias valentim e semelhantes, criadas especialmente para essas datas e que, depois - surpresa - não vingam. Vão para o lixo, tão descartáveis como os amores-coisa de todos os tempos.
 
Primeira fotos de 2 de outubro e as restantes de 16 de dezembro, de 2012, no jardim.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

HEBE (VERÓNICA ARBUSTIVA)


Sobre as últimas ilustrações, dizem-me: "plantas da época, tudo bem, acompanho, mas, cor, cor ... prefira a cor!". Cores quentes, vivas, espectaculares, entenda-se, também as prefiro. Porém, nesta altura do ano, só em estufas ou no hemisfério sul. Por mim, estou interessado em conhecer melhor as plantas de qualquer altura do ano, especialmente as nativas ou adaptadas à região, por mais discretas que nos apareçam. Mas, procurarei satisfazer o interesse de quem se dá ao trabalho, que agradeço, de se demorar pouco que seja neste espaço.


Afinal, até habitamos um país da Europa Meridional, no extremo sudoeste, e, por aqui á volta, de clima temperado, mais mediterrânico que atlântico. Assim, por exemplo, somos ou não privilegiados por em finais do outono ainda podermos contar com florações como a da hebe? Lembrar-se-ão de que em finais do mês passado publiquei fotos de uma outra variedade de hebe mas cuja floração tinha já terminado. Não esperava vir a deparar-me já nos finais do outono, com um exemplar florido.


Voltemos então à hebe, desta vez a uma hebe florida. Hebe é também o nome de uma figura da mitologia grega que representa a deusa da juventude. Ainda não será nada de especialmente espectacular? Mas que outro pequeno arbusto decorativo, cultivado no exterior, de folhagem permanente, oferece tão belas inflorescências nesta altura do ano?  Dir-me-ão: cores tristes, branco, violeta, púrpura, por vezes também azul ou cor de rosa. Mas a planta não é, apenas, cor.  

As folhas são de cor verde, simples, inteiras, persistentes, com cerca de 12 cm de comprimento e em forma de lança e dispostas segundo linhas perpendiculares, em pares opostos.

 
As vistosas flores estão organizadas em rácemos de cerca de 15 cm de comprimento, situados na extremidade das hastes. Os estames longos, numerosos e evidentes estão inseridos perto da base do tubo da corola e dão um toque exótico á flor. O perfume das hebes é muito chamativo para as borboletas que, afinal, precisam de néctar e pólen em todas as estações...

Fotos de 6 de dezembro de 2012, em Coimbra.