sexta-feira, 6 de maio de 2016

pelo VALE do PAIVA


Uma festa para os sentidos: tanta luz, cor, movimento, sons! Mas, globalmente, o rio é presença olímpica.


Se, por momentos, o perdemos de vista os sons que as encostas nos devolvem ampliados,  manifestam a dinâmica poderosa da corrente caudalosa, atraem-nos continuadamente. Um preço: a atenção demora-se menos com detalhes de outras manifestações também interessantes que terão de ficar - quem sabe? - para um tempo futuro.


Com mais de metade do percurso realizado, o passadiço declina com suavidade enquanto cresce a agitação das águas. A vegetação oferece sombra o quanto baste.


Uma ou outra vez cruzamos com córregos de caudal variado e descontínuo que descem das arribas alcantiladas por sulcos estreitos e profundos, espraiando-se nos últimos metros antes de alcançarem o grande rio. Naturalmente, também por aí a vegetação ribeirinha emerge da aspereza das rochas e acompanha essas linhas de água ora opulentas, ora minguadas, sempre efémeras guardando, mesmo no pico do Estio, aquele mínimo de frescura e humidade que exprime o seu potencial criativo.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

CAMINHANDO, ainda


pelo vale do Paiva, usando o passadiço de madeira que podemos ver aflorar no canto esquerdo  em direcção ao centro da foto.


Já nesta outra, mostro como o passadiço nos encaminha desde os picos da margem esquerda do rio, descendo pela encosta íngreme, para mais além voltarmos a subir e novamente a descer mas, agora, menos esforçadamente. Veja-se em cima na direcção do centro e, depois, já em inclinação suave, nova secção que parece desaparecer  à direita na foto.


Aqui, continuávamos descendo, já relativamente próximos da linha de água.


Os agradabilíssimos sons das águas revoltas tornam-se então, naturalmente mais audíveis. Um convite para ficar por muito mais tempo,  deixando-nos embalar pela envolvente natural e primitiva.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

CAMINHADAS, PASSADIÇOS do PAIVA


Após a  inesperada subida desde a Ponte de Alvarenga - excessiva para o normal da nossa idade - alcançámos um patamar com vistas espectaculares para a garganta do Paiva. Na foto, ao centro e em baixo, distingue-se o passadiço de madeira acompanhando e aproximando-se do leito do rio.


Após os incêndios dos últimos verões, a serra mostra-se sobremaneira desfalcada do revestimento vegetal. Sobrevivem alguns eucaliptais e, por caprichos do destino, também uma ou outra espécie autóctone. Mas a vida parece emergir das rochas mesmo nos sítios mais agrestes.  


As chuvas desta primavera e uma temperatura ambiente razoavelmente amena multiplicam os sinais da renovação. 


Como é natural, o revestimento vegetal das margens junto ao leito do rio, menos vulnerável aos fogos, mantém-se denso e muito vigoroso. Na foto, canto inferior esquerdo, as águas de uma imponente queda de água encontram o leito do rio.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

CAMINHADAS



Porque é que as chuvas de primavera podem, afinal, ser aliadas dos caminhantes? 


 São dez horas duma manhã de Abril, na praia fluvial do Areinho na margem esquerda do rio Paiva, a 15 Km de Arouca e a 5 de Alvarenga. Céu limpo e temperatura do ar de 10 graus centígrados. Início de uma caminhada aproximadamente de nove quilómetros (lineares) até Espiunca. Esperam-nos desníveis acumulados de  cerca de trezentos metros. 


O rio é o fio condutor. A nascente fica bem longe, na serra do Leomil.  O majestoso caudal de águas quase imaculadas - verdadeiro achado - permite avistar os fundos graníticos quando não se envolve com os afloramentos  rochosos descendo em torrente poderosa e agitada.  Aí o espelho que devolve os tons das margens e do céu em matizes mais escuros  volta-se, indistinto, em turbilhão cristalino. Sons da mais repousante e agradável melodia, refletidos  pelas paredes íngremes das encostas que desenham o vale, envolvem-nos em todo o percurso. Nos rápidos ampliam-se. Não, não é efabulação!  Nesta altura do ano, mercê da persistência das chuvas, esse efeito é bem real e permanente.   


Começamos a avistar os três arcos em cantaria da ponte de Alvarenga, de cerca de 20 metros de altura até à superfície das águas, obra concluída ainda no séc. XVIII. Cruzaremos a estrada. A verdadeira caminhada começará então. Daí para a frente há que vencer um acentuado desnível até às alturas, perto da Garganta do Paiva. Felizmente  não há calor, não chove, o rio corre volumoso (não vai correr assim todo o ano!), à volta a serra veste-se com um novo manto verde e até já há florações em árvores como o pinheiro e nalgumas herbáceas, exemplo as abróteas (asphodelus) e arbustos como o tojo (ulex). 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

ASPHODELUS BENTO-RAINHAE (ABRÓTEA, ABRÓTEGA, GAMÃO, BENGALA-de S.JOSÉ)




Estamos nos primeiros dias de primavera. Passado já o meio da manhã, a temperatura do ar ronda os 10 graus centígrados. No entanto, o ambiente é magnífico para a caminhada.


A água escorre lentamente dos cimos e insinua-se pelos locais mais recônditos. Novas rebentações foliares revestem as encostas rochosas e escarpadas e, em taludes de solos derivados de granitos e xistos, surgem as primeiras flores. 


É o caso do asphodelus que na variedade bento-rainhae é uma espécie ameaçada e em perigo de extinção. 


Estas plantas estão providas de órgãos de reserva alimentar subterrâneos  que lhes permitem resistir a duras condições de tempo frio ou quente (geófito rizomatoso). Fogos e a destruição de carvalhais, entre outros, estão a reduzir perigosamente o seu habitat natural. Ali nas margens do Paiva onde as encontrámos, há um processo recente de erosão em consequência de iniciativa humana ainda que bem intencionada e proveitosa, qual seja a de trazer as pessoas ao contacto com a natureza. 


Convenhamos em que, sendo efectivo e permanente o risco de incêndio, o deixar as coisas entregues a si mesmas,  também não favoreceria a sua preservação. A passagem de pessoas perturba o ambiente natural mas também é maior a vigilância e o controlo dos matos e infestantes.  

sábado, 26 de março de 2016

SEBASTIÃO DA GAMA - A corda tensa que eu sou


A corda tensa que eu sou,
o Senhor Deus é quem
a faz vibrar...


Ai linda longa melodia imensa!...
- Por mim os dedos passa Deus e então
já sou apenas Som e não
se sabe mais da corda tensa...

Sebastião da Gama (1924 - 1952), A corda tensa que eu sou, "Serra Mãe", Ed. Ática, Lisboa, 2000.




segunda-feira, 21 de março de 2016

RUY BELO: O Problema da Habitação Alguns Aspectos


Imaginatio Locorum
(...)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz



Como saber de mim? Eu - que diabo -! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes


É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais do que nunca provisória
(...)

Ruy Belo, Obra Poética, vol 1, Editorial Presença, 2ª edição, Lx. 1984, pgs 78.