quarta-feira, 13 de abril de 2016

CAMINHADAS



Porque é que as chuvas de primavera podem, afinal, ser aliadas dos caminhantes? 


 São dez horas duma manhã de Abril, na praia fluvial do Areinho na margem esquerda do rio Paiva, a 15 Km de Arouca e a 5 de Alvarenga. Céu limpo e temperatura do ar de 10 graus centígrados. Início de uma caminhada aproximadamente de nove quilómetros (lineares) até Espiunca. Esperam-nos desníveis acumulados de  cerca de trezentos metros. 


O rio é o fio condutor. A nascente fica bem longe, na serra do Leomil.  O majestoso caudal de águas quase imaculadas - verdadeiro achado - permite avistar os fundos graníticos quando não se envolve com os afloramentos  rochosos descendo em torrente poderosa e agitada.  Aí o espelho que devolve os tons das margens e do céu em matizes mais escuros  volta-se, indistinto, em turbilhão cristalino. Sons da mais repousante e agradável melodia, refletidos  pelas paredes íngremes das encostas que desenham o vale, envolvem-nos em todo o percurso. Nos rápidos ampliam-se. Não, não é efabulação!  Nesta altura do ano, mercê da persistência das chuvas, esse efeito é bem real e permanente.   


Começamos a avistar os três arcos em cantaria da ponte de Alvarenga, de cerca de 20 metros de altura até à superfície das águas, obra concluída ainda no séc. XVIII. Cruzaremos a estrada. A verdadeira caminhada começará então. Daí para a frente há que vencer um acentuado desnível até às alturas, perto da Garganta do Paiva. Felizmente  não há calor, não chove, o rio corre volumoso (não vai correr assim todo o ano!), à volta a serra veste-se com um novo manto verde e até já há florações em árvores como o pinheiro e nalgumas herbáceas, exemplo as abróteas (asphodelus) e arbustos como o tojo (ulex). 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

ASPHODELUS BENTO-RAINHAE (ABRÓTEA, ABRÓTEGA, GAMÃO, BENGALA-de S.JOSÉ)




Estamos nos primeiros dias de primavera. Passado já o meio da manhã, a temperatura do ar ronda os 10 graus centígrados. No entanto, o ambiente é magnífico para a caminhada.


A água escorre lentamente dos cimos e insinua-se pelos locais mais recônditos. Novas rebentações foliares revestem as encostas rochosas e escarpadas e, em taludes de solos derivados de granitos e xistos, surgem as primeiras flores. 


É o caso do asphodelus que na variedade bento-rainhae é uma espécie ameaçada e em perigo de extinção. 


Estas plantas estão providas de órgãos de reserva alimentar subterrâneos  que lhes permitem resistir a duras condições de tempo frio ou quente (geófito rizomatoso). Fogos e a destruição de carvalhais, entre outros, estão a reduzir perigosamente o seu habitat natural. Ali nas margens do Paiva onde as encontrámos, há um processo recente de erosão em consequência de iniciativa humana ainda que bem intencionada e proveitosa, qual seja a de trazer as pessoas ao contacto com a natureza. 


Convenhamos em que, sendo efectivo e permanente o risco de incêndio, o deixar as coisas entregues a si mesmas,  também não favoreceria a sua preservação. A passagem de pessoas perturba o ambiente natural mas também é maior a vigilância e o controlo dos matos e infestantes.  

sábado, 26 de março de 2016

SEBASTIÃO DA GAMA - A corda tensa que eu sou


A corda tensa que eu sou,
o Senhor Deus é quem
a faz vibrar...


Ai linda longa melodia imensa!...
- Por mim os dedos passa Deus e então
já sou apenas Som e não
se sabe mais da corda tensa...

Sebastião da Gama (1924 - 1952), A corda tensa que eu sou, "Serra Mãe", Ed. Ática, Lisboa, 2000.




segunda-feira, 21 de março de 2016

RUY BELO: O Problema da Habitação Alguns Aspectos


Imaginatio Locorum
(...)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz



Como saber de mim? Eu - que diabo -! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes


É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais do que nunca provisória
(...)

Ruy Belo, Obra Poética, vol 1, Editorial Presença, 2ª edição, Lx. 1984, pgs 78.

sábado, 5 de março de 2016

GREVILLEA OLIVACEA


A forma das folhas deste arbusto remete-nos para outras eras geológicas em que a adaptação ao frio era condição necessária para a sobrevivência. No entanto, hoje em dia, os híbridos da grevilea dificilmente se adaptam a temperaturas negativas. 


Por aqui na aldeia temos de contar com as geadas. Por isso não arriscaria plantá-la no meu jardim, mesmo em vaso que possa facilmente recolher na estação fria, porque já não tenho espaço coberto disponível. 


Felizmente podemos visitá-las mais a sul onde os invernos são temperados. Ou nos Açores e Madeira onde o cultivo das próteas, plantas da mesma família da gravilea, se tornou emblemático. 


Que singulares inflorescências. Fixemo-nos numa única flor de entre a massa de flores de cada conjunto. Anote-se a forma de cada uma divergindo do conjunto floral. Observemos os longos estiletes encurvados mais creme na base, tendendo primeiramente  para o amarelo claro e depois para o verde-alface, dirigindo os estigmas na direcção das anteras situadas no interior da flor. Recuemos um pouco para contemplar o efeito das inflorescências sobre o fundo verde-escuro da folhagem. Uma viagem no tempo.

Fotos de Fevereiro de 2016.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ABUTILON


Entrados na parte final de um inverno particularmente suave, notamos com alívio as primeiras manifestações de energia do mundo vegetal.  


Ladeando o caminho, destaca-se um arbusto de folhagem inesperadamente vigorosa para a época. Mais de perto, deparamos com os primeiros botões e até com algumas flores já abertas de um rosa a vermelho delicados.


As formas das flores, pequenos sinos levemente arqueados e  a das folhas que lembram as do acer, remetem-nos para as malváceas.


O ambiente é de sombra, húmido até. Discretamente, apenas alguns raios de sol alcançam este lado do caminho.  No entanto, os largos colectores captam os suficientes para a formidável retoma da máquina transformadora que até aos finais do outono não parará de produzir a boa seiva e de a distribuir amplamente até às mais recônditas das suas células.

Fotos de 5 de Fevereiro de 2016.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Bendito seja o mesmo sol de outras terras


Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens

Alberto Caeiro. Fernando Pessoa

Foto-gentileza MM, nos meados de Fevereiro de 2016, pelas 07H30.