quarta-feira, 20 de maio de 2015

LILIUM


Discretamente, surgem em Maio as primeiras três flores em botão do "lilium".


O aumento da exposição à radiação solar desperta as pigmentações mais quentes: acentuam-se os rosas e o amarelo das nervuras. Esvai-se o verde. 


O botão abre: muito lentamente afastam-se as sépalas. 


No seu despertar, parecem soltar um longo, longo bocejo... Não há pressa: a adaptação dos tecidos às novas condições requer tempo.


Naquele sector do jardim há um novo foco. Mas não apenas para nós jardineiros de trazer por casa: também os insectos polinizadores, gulosos e de narizes sofisticados, respondem à chamada. 


O tamanho dos vários elementos da flor proporciona uma oportunidade de revisão de matéria botânica elementar. Principiantes como eu não a deixam fugir. Daqui saudando os mestres, deixo o breve sumário dos meus apontamentos: idênticas na forma, cor, estrutura e função, mostram-se três pétalas na círculo interior (corola) e três sépalas no anel externo (cálice). A venação paralela em rosa escuro dá-lhes consistência, sinaliza e orienta na direcção do néctar os insectos com visão ultravioleta. Na base das pétalas e em torno das glândulas secretoras do precioso líquido açucarado, erguem-se uns curiosos lançamentos tubulares diversificando as escolhas dos visitantes. 



A olho nu são visíveis ao pormenor os estames (6),  elementos masculinos que rodeiam o carpelo e particularmente as anteras, em castanho, produtoras de pólen, suportadas pelos filetes em verde amarelado. Na base do carpelo fica o ovário, invisível na foto, onde são produzidas as sementes e, no topo, o estigma (trilobado como melhor se vê na 4ª foto) que recebe o pólen das anteras. Liga-os o estilete. 
Nota: atendendo às circunstâncias de crise generalizada espero a benevolência dos examinadores e, se não for demasiado, o dez da ordem... ou,  - vá lá - o nove mais. Não sejam forretas! 


terça-feira, 12 de maio de 2015

ALLIUM CRISTOPHII (ESTRELA-da-PÉRSIA, STARS of PERSIA, ÉTOILE de PERSE)


É costume relacionarmos alho e culinária. Hoje, trago imagens de um outro alho, que é novidade no jardim, uma das cerca de 500 espécies do género allium usado como decorativo. 


Por aqui abundam os bolbos selvagens. A aquisição que fiz de mais um para fins decorativos tinha viabilidade assegurada. O que resultaria em termos de flor, uma surpresa... No início de Março surgiram da base, lineares, encrespadas, as primeiras folhas. Acompanhando o desenvolvimento da planta, não a relacionei mais com o "allium". Só podia ser um equívoco da rotulagem.



Nos primeiros dias de Abril uma primeira inflorescência começou a abrir. Mais abaixo e à direita iria surgir um novo botão.


A partir do estado que a foto revela, surgiram as primeiras estrelas de um universo de cerca de cem por pé.


Em breve, as flores foram emergindo sucessivamente, formando um globo. Afinal como a inflorescência do alho comum. Não havia engano! 
Note-se como flores sumidas permanecem ao lado doutras em botão ou ainda no auge.  


Cada uma das flores, de muito perto, 


ou a inflorescência, são deslumbrantes. Aqui o que fora um segundo botão ultrapassou o primeiro em altura. 


Mesmo na senescência, a flor mantém-se bela. Uma aposta ganha. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

NIGELLA DAMASCENA (BARBAS-de-VELHO), num lugar improvável para nascer.


Mil e uma sementes a água das chuvas arrastou em cega e implacável dinâmica. 


Numa fenda do passeio alguma coisa a susteve. E, sorte, estava ali guardada uma provisão  de nutrientes mínima mas suficiente para alimentar uma herbácea. A condensação nocturna ofereceu a água.



E a flor surgiu, 


num local improvável para nascer. Possivelmente, novas sementes surgirão. Entretanto o serviço de passagem continua a fazer-se. Dá-me licença? Fique bem!

Fotos de ontem. Uma entrada do jardim.

domingo, 12 de abril de 2015

AKEBIA QUINATA (AQUEBIA, CHOCOLATE VINE, AQUÉBIE à cinq feuilles, LIANE CHOCOLAT)


Trepadeira lenhosa, ornamental, originária da China, Japão e Coreia, de flor muito exótica. Perfume intenso a baunilha.


Flores com formas diferentes na mesma planta e de ambos os sexos, sendo as femininas (3 primeiras fotos) de tamanho maior e situadas no lado exterior da inflorescência organizada em cacho pendente. Surgem nos finais de Março, inícios de Abril, brilhantes e vistosas.


Não têm corola. Em cima, flor fêmea em vermelho-purpúrea de 3 sépalas petalóides. Notável o aspecto dos pequenos estames. Em baixo, flores masculinas, significativamente mais pequenas. 


Não é planta muito comum nos nossos jardins. No entanto é muito rústica, exigindo apenas exposição ao sol ou meia-sombra. A planta é de crescimento muito rápido e pode tornar-se invasiva. Os cortes de contenção (ligeiros, de preferência) efectuam-se após a queda das flores.


Folhas compostas de 5 folíolos. Tão exótico como a coisa nomeada, o seu nome de família -imagine-se - Lardizabalácea. 


sábado, 4 de abril de 2015

José Blanc de Portugal: entre SÁBADO de ALELUIA e DOMINGO de PÁSCOA


Ó vós que em mim pensaste como guia,
Ó vós minha mãe tão esperançada
Tão cega ao tropeçar em que gemia
A juventude em que o meu nada
Jazia ardendo inda que sem raiva expressa,


Não me julgueis mestre final
Não me queirais talhando augural
Rumo mais claro do que estes versos


Apenas neles - 
Se neles qualquer coisa val´,
Se neles algo podeis ler - 
Uma simples linha ou dela um troço
Vos bastará como a Cuvier um osso
Para de novo verdes todo o animal.


José Blanc de Portugal,Lisboa 1914 - 2001.


in, Enéadas 9 Novelas, II.1 Anatomia Comparada. Imprensa Nacional-Casa da Moeda - Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa 1989, p. 19.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sexta-feira Santa


Como odre e como veste roída pela traça se desgasta, o homem nascido de mulher: tem vida curta e cheia de inquietação. Ele abre-se como flor, e logo murcha; ...


... Uma árvore tem esperança: mesmo que a cortem, volta a rebentar e os seus ramos continuam a crescer...


... O homem, porém, morre e fica inerte. Para onde vai o homem quando expira?...


... Acaso voltará a viver um homem que já tenha morrido? ...

 Job 14, Bíblia Sagrada, Paulus, Lx. 1993, p. 683.

quinta-feira, 26 de março de 2015

De muitas ribeiras feito


Ali, na serra da Lousã, mais de metade da floresta foi de pinheiro bravo (pinus pinaster). Na segunda metade do séc. XX, foi alastrando o eucalipto (eucalyptus). Dispersos, contam-se ainda o castanheiro (castanea sativa) e vários quercus, como os sobreiros e carvalhos. Noutras eras, podem ter sido  o revestimento natural da serra. 


Após os grandes incêndios, a floresta parece recuperar. Ilusão: nada voltou a ser como dantes. Agora, o verde revela-se adocicado em vastos tons de amarelo e sustenta-se à custa de invasivas  como a mimosa (acacia dealbata), uma ameaça precocemente florida, conflituante para com o revestimento antigo. 



Alastram os campos e aldeias abandonados. Mas é  no fundo dos acentuados declives onde correm linhas de água, nos patamares adjacentes e, fora da zona de montanha, nas várzeas, onde ainda se cultiva o milho, feijão ou a  batata e pequenos pomares de cerejeiras, figueiras, nogueiras. 


Perto, mas em zonas já quase inacessíveis, ainda é possível encontrar sugestões do antigo revestimento natural do solo: azevinhos, fetos-reais, medronheiros, sabugueiros, loureiros, salgueiros. Nas dobras menos abruptas do terreno escondem-se ribeiros. Aí, a vegetação rasteira e arbustiva é mais abundante e, por vezes, só a relaxante música  aquática provocada pelo encontro das águas com diversos travamentos naturais - calhaus, rochas, troncos, ramos - denuncia a sua jovial presença. 



Perto do termo do percurso montanhoso, a ribeira de S. João mostra figura. O machado de guerra, tantas vezes erguido em defesa de um certo entendimento da justa divisão das águas, permanecerá  enterrado bem fundo, tão esquecido como a gesta heróica do povo que lutou pela sobrevivência, domesticando a paisagem. Indiferente aos cálculos dos visitantes que displicentemente alvitram projectos turísticos de êxito seguro, cedo irá mudar-se em rio, o Arouce e, um pouco mais adiante, já por entre várzeas cultivadas, encontrará a margem esquerda do rio Ceira, em Foz do Arouce. Mais a jusante, as suas águas mestiçadas, encontram "as doces e claras águas do Mondego", o grande rio inteiramente português e quando passarem por Coimbra - cidade dita do conhecimento - quem haverá para evocar os seus afluentes e subafluentes, quem fará justiça à ribeira de S. João?