quarta-feira, 29 de abril de 2015

NIGELLA DAMASCENA (BARBAS-de-VELHO), num lugar improvável para nascer.


Mil e uma sementes a água das chuvas arrastou em cega e implacável dinâmica. 


Numa fenda do passeio alguma coisa a susteve. E, sorte, estava ali guardada uma provisão  de nutrientes mínima mas suficiente para alimentar uma herbácea. A condensação nocturna ofereceu a água.



E a flor surgiu, 


num local improvável para nascer. Possivelmente, novas sementes surgirão. Entretanto o serviço de passagem continua a fazer-se. Dá-me licença? Fique bem!

Fotos de ontem. Uma entrada do jardim.

domingo, 12 de abril de 2015

AKEBIA QUINATA (AQUEBIA, CHOCOLATE VINE, AQUÉBIE à cinq feuilles, LIANE CHOCOLAT)


Trepadeira lenhosa, ornamental, originária da China, Japão e Coreia, de flor muito exótica. Perfume intenso a baunilha.


Flores com formas diferentes na mesma planta e de ambos os sexos, sendo as femininas (3 primeiras fotos) de tamanho maior e situadas no lado exterior da inflorescência organizada em cacho pendente. Surgem nos finais de Março, inícios de Abril, brilhantes e vistosas.


Não têm corola. Em cima, flor fêmea em vermelho-purpúrea de 3 sépalas petalóides. Notável o aspecto dos pequenos estames. Em baixo, flores masculinas, significativamente mais pequenas. 


Não é planta muito comum nos nossos jardins. No entanto é muito rústica, exigindo apenas exposição ao sol ou meia-sombra. A planta é de crescimento muito rápido e pode tornar-se invasiva. Os cortes de contenção (ligeiros, de preferência) efectuam-se após a queda das flores.


Folhas compostas de 5 folíolos. Tão exótico como a coisa nomeada, o seu nome de família -imagine-se - Lardizabalácea. 


sábado, 4 de abril de 2015

José Blanc de Portugal: entre SÁBADO de ALELUIA e DOMINGO de PÁSCOA


Ó vós que em mim pensaste como guia,
Ó vós minha mãe tão esperançada
Tão cega ao tropeçar em que gemia
A juventude em que o meu nada
Jazia ardendo inda que sem raiva expressa,


Não me julgueis mestre final
Não me queirais talhando augural
Rumo mais claro do que estes versos


Apenas neles - 
Se neles qualquer coisa val´,
Se neles algo podeis ler - 
Uma simples linha ou dela um troço
Vos bastará como a Cuvier um osso
Para de novo verdes todo o animal.


José Blanc de Portugal,Lisboa 1914 - 2001.


in, Enéadas 9 Novelas, II.1 Anatomia Comparada. Imprensa Nacional-Casa da Moeda - Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa 1989, p. 19.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sexta-feira Santa


Como odre e como veste roída pela traça se desgasta, o homem nascido de mulher: tem vida curta e cheia de inquietação. Ele abre-se como flor, e logo murcha; ...


... Uma árvore tem esperança: mesmo que a cortem, volta a rebentar e os seus ramos continuam a crescer...


... O homem, porém, morre e fica inerte. Para onde vai o homem quando expira?...


... Acaso voltará a viver um homem que já tenha morrido? ...

 Job 14, Bíblia Sagrada, Paulus, Lx. 1993, p. 683.

quinta-feira, 26 de março de 2015

De muitas ribeiras feito


Ali, na serra da Lousã, mais de metade da floresta foi de pinheiro bravo (pinus pinaster). Na segunda metade do séc. XX, foi alastrando o eucalipto (eucalyptus). Dispersos, contam-se ainda o castanheiro (castanea sativa) e vários quercus, como os sobreiros e carvalhos. Noutras eras, podem ter sido  o revestimento natural da serra. 


Após os grandes incêndios, a floresta parece recuperar. Ilusão: nada voltou a ser como dantes. Agora, o verde revela-se adocicado em vastos tons de amarelo e sustenta-se à custa de invasivas  como a mimosa (acacia dealbata), uma ameaça precocemente florida, conflituante para com o revestimento antigo. 



Alastram os campos e aldeias abandonados. Mas é  no fundo dos acentuados declives onde correm linhas de água, nos patamares adjacentes e, fora da zona de montanha, nas várzeas, onde ainda se cultiva o milho, feijão ou a  batata e pequenos pomares de cerejeiras, figueiras, nogueiras. 


Perto, mas em zonas já quase inacessíveis, ainda é possível encontrar sugestões do antigo revestimento natural do solo: azevinhos, fetos-reais, medronheiros, sabugueiros, loureiros, salgueiros. Nas dobras menos abruptas do terreno escondem-se ribeiros. Aí, a vegetação rasteira e arbustiva é mais abundante e, por vezes, só a relaxante música  aquática provocada pelo encontro das águas com diversos travamentos naturais - calhaus, rochas, troncos, ramos - denuncia a sua jovial presença. 



Perto do termo do percurso montanhoso, a ribeira de S. João mostra figura. O machado de guerra, tantas vezes erguido em defesa de um certo entendimento da justa divisão das águas, permanecerá  enterrado bem fundo, tão esquecido como a gesta heróica do povo que lutou pela sobrevivência, domesticando a paisagem. Indiferente aos cálculos dos visitantes que displicentemente alvitram projectos turísticos de êxito seguro, cedo irá mudar-se em rio, o Arouce e, um pouco mais adiante, já por entre várzeas cultivadas, encontrará a margem esquerda do rio Ceira, em Foz do Arouce. Mais a jusante, as suas águas mestiçadas, encontram "as doces e claras águas do Mondego", o grande rio inteiramente português e quando passarem por Coimbra - cidade dita do conhecimento - quem haverá para evocar os seus afluentes e subafluentes, quem fará justiça à ribeira de S. João? 

quinta-feira, 5 de março de 2015

À ESCALA de LILLIPUT


Últimos dias do passado Fevereiro. Céu carregado de nuvens, ameaçando chuva. Sopra uma aragem muito fria. Ainda assim, continuamos - a minha mulher e eu - subindo a encosta desde o vale do Arouce em direcção à Ermida de Nossa Senhora da Piedade. O acesso foi sendo escavado na rocha pelo menos desde os séculos XIII e XIV, época da construção da maior das capelas - a capela de S. João. Ladeiam-no formações de xisto onde às vezes conseguem instalar-se espécies do género Quercus, como o carvalho alvarinho, o carvalho negral e o sobreiro. Mas a minha atenção, pela manifesta exuberância, foca-se em espécies de um mundo de outra escala: musgos, líquenes e  algas terrestres. 


Vou registando. Até que sou conduzido à vista de um pequeno patamar, apenas acessível até aos bordos. Ali, a novidade é o inesperado da cor quente de uma flor sobre o fundo de incontáveis tonalidades de verde. Por largos momentos esqueço os musgos.


Que planta e que flor! Em pleno inverno, no alto de um monte batido pelos ventos bem frios e, às vezes, também pela neve, instalada sobre a rocha contando apenas com a humidade atmosférica e com a que os musgos conseguem reter. 
.  

Flor e o caule não são tudo. Malgrado os esforços não consegui registar as folhas ao nível da base. Apenas com estes dados, até onde pode avançar o leigo na identificação da planta? À partida, diria, "ranunculus". Mas a flor do "ranunculus" mostra-se de 5 pétalas, o que não é manifestamente o caso. Ranúnculo de 7 pétalas? Não é impossível. 


Resta-me o apelo aos possíveis leitores que, por generosidade, queiram dar o seu contributo. Aqui deixo, desde já, o meu muito obrigado.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

EM FEVEREIRO NASCEU UMA FLOR, SEGREDO MEU


Vulcânica, eruptiva... todavia, contida, é cor transformada em botão.


 Botão é vida, organização, membrana que estende para fora de si.


 Capta, emite sinais. No tempo certo, abriu em flor: que provocação!



 Tantas possibilidades. Jardineiro de uma só flor, céus, tudo nela apostei. Valeu! 

Xi-coração.