domingo, 2 de novembro de 2014

MUTINUS ELEGANS (ELEGANT STINKHORN, SATYRE ÉLÉGANT)


Tinha cortado a relva na véspera com as lâminas ao nível mais baixo, algo de improvável para a última semana de Outubro. Na manhã seguinte,   o caule alaranjado e castanho-escuro do mutinus, um efémero fungo da família das Faláceas que surge todos os anos por esta altura, contrastava com o verde do relvado. Tem a forma de um pequeno corno, que estreita da base para o ápice. E uma noite basta para desencadear o processo de enchimento das células com água que o faz emergir do aparelho esporífero semi-enterrado e logo alcançar cerca de 6 cm de altura.  


O corpo desse aparelho é formado por uma rede de hifas que compõem o micélio. Este decompõe o solo com vantagem para o relvado que, deste modo, consegue um suplemento de nutrientes mais acessível à absorção pelas raízes.  Curiosamente, ao contrário dos demais,  este cogumelo parece preferir a exposição ao sol. Depois, até um certo limite, também aprecia o calor ainda tépido dos finais de Outubro e finalmente, a humidade trazida pelas chuvas  outonais e um solo acidulado e recoberto de folhas secas.  


O caule está mais direccionado para a reprodução. É muito fino, poroso e  alveolado. Por vezes surge recurvado. Na base apresenta uma cinta esbranquiçada que o une ao "ovo" de onde saiu. O seu terço final apresenta-se coberto por uma massa fina e gelatinosa  de odor forte e desagradável, barrada de esporos, que repele borboletas e abelhas mas atrai moscas e outros insectos que dele recolhem alimento e, através do aparelho bucal e das patas, acabam colaborando na dispersão dos esporos. 


                Fotografias ampliadas só são possíveis se tiradas de muito perto. Não fora o muito   experimentado exercício  de apneia e teria sucumbido ao pestilento odor libertado pela gleba madura, sensível para nós até a mais de um metro de distância. No entanto, este cogumelo tem a capacidade de decompor madeira velha e ervas secas onde podem localizar-se organismos patogénicos cujo desenvolvimento inibe. Também por isso e pelas cores vivas (elegans) e forma caprichosa (mutinus=rebelde) os deixo viver a sua vida breve, esperando que continuem a surpreender-me. 

Fotos de 28 de Outubro de 2014, no jardim.





quinta-feira, 30 de outubro de 2014

FLORAÇÃO EXTEMPORÂNEA


Flor de amendoeira doce (Prunus dulcis). Em Fevereiro/Março? Não! Flor de amendoeira em 28 de Outubro de 2014, no quintal.


É sabido que as condições do clima afectam o surgimento da floração. Muito provavelmente o ambiente quente e seco dos últimos dias terá  relação com este resultado, bem como com idênticos resultados nos citrinos.


A entrada em dormência é um mecanismo de adaptação que permitirá à planta resistir ao frio. Esperemos ainda que o surgimento do frio aconteça de modo progressivo de modo a induzir na planta, em tempo útil, a redução significativa do metabolismo. Por ora, estas lindas flores estão condenadas ao insucesso.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

ALSTROEMERIA (ALSTROEMÉRIA, ALSTROEMÈRE)


As folhas da hera não alcançaram ainda os tons quentes de outono: laranja, amarelo, vermelho. Mas no chão abundam já as folhas secas, enroladas e a parede descobre-se evidenciando a rede de veias salientes que a folhagem verde escondia desde a primavera.   


Vantagem para a alstroeméria que com a nossa pequena ajuda encontra apoio nos caules abundantes da trepadeira.


Nas fotos a variedade A. "spitfire", muito exótica, de seis tépalas laranja-avermelhadas. Três delas mostram-se tracejadas a castanho e duas exibem uma mancha amarelo-brilhante.  As tépalas dispõem-se parcialmente sobrepostas. 


Destaque para os seis estames: os dois mais à direita perderam as anteras.  Ao centro o pedicelo a verde, seguido de ovário, estilete e estigma. 


 O ovário é inferior, com três carpelos.

Fotos de 24 de Outubro de 2014 e desta manhã no jardim.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

CAMPANULA CARPATICA (CAMPÂNULA CARPÁTICA, TUSSOCK BELLFLOWER, CAMPANILLAS, CAMPANULE des CARPATES )


Desde há anos sob um curto telheiro ao abrigo dos raios directos do sol, adaptou-se bem posta em vaso sobre uma floreira antiga. Nos invernos mais rigorosos parece fenecer, para no início da primavera surgir remoçada.  


Originária dos Cárpatos, na Europa de Leste, não admira que se desse tão bem no vale do rio Noéme, um pouco acima dos 700 m de altitude, de onde a trouxemos. Não a associei logo à família das campanulaceae a que realmente pertence tendo em conta que a corola não chega a formar um tubo ou taça como geralmente acontece. Do botão, logo abrem em ângulo muito aberto as cinco pétalas soldadas entre si. Do centro saem um estilete que termina com três estigmas e cinco estames livres. Sépalas livres. Ovário inferior.  O fruto é uma cápsula.


Os caules herbáceos da nossa campânula pendem do vaso e oferecem as flores como que tombando de um manto verde. Folhas simples, alternas, cordiformes, com pequenos recortes denteados nas margens. Sépalas livres, visíveis nas segunda e quarta das fotos. 


Em plano superior e à direita da foto, destaque para estilete e estigma.
A planta desenvolve formações vegetativas junto à base que podem ser utilizadas na sua multiplicação.

Fotos de 18 de Outubro de 2014, no jardim.

sábado, 18 de outubro de 2014

CELOSIA ARGENTEA (CRISTA-de-GALO, COCKSCOMB, CÉLOSIE, CRESTA de GALLO, MOCO de GUANAJO)


Centos de pequenas flores organizam-se em densas inflorescências compondo uma silhueta espectacular, algo rebuscada, quase intimidante.


De toque aveludado, macias, brilhantes, aqui em vermelho mas podendo encontrar-se em muitas outras cores do branco ao púrpura.


Por estas ondulações também são chamadas em inglês de "brain flowers".


Cérebro ou coral?



Gostam da exposição ao sol. Semeiam-se na primavera e transplantam-se no final da primavera ou início do verão.

Com excepção das terceira e quarta, são fotos-gentileza da autoria de JM tiradas em Outubro de 2014.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

TECOMA CAPENSIS (TECOMÁRIA, CAMARÃO, CAPE HONEY SUCKLE, BIGNONE DU CAP)


Por um momento, as nuvens pesadas parecem convergir para norte e nascente. Enquanto do quadrante sul-poente não virmos novas formações escuras ou em castelo, poderemos contar com claridade e uma boa pausa nas chuvas. Apresso-me a sair, aproveitando este sol de Outubro. 


Recortadas sob o fresco azul do céu, as flores de cor alaranjada alongam-se em busca de mais luz. As pétalas parcialmente fundidas formam um tubo recurvado, estreito e longo, abrindo numa boca alargada, pubescente na face interna.  Do interior saem quatro estames férteis mais um estaminódio. As anteras abrem longitudinalmente e o pólen é de cor laranja.


Na foto são visíveis flores após queda das pétalas, mantendo estiletes e estigmas. Os ovários são superiores. Ainda uma flor em botão e outra em vista posterior com destaque para os cinco lóbulos da corola. 


Se se dispõe de um pequeno espaço de jardim, atenção ao notável potencial competitivo e invasivo da planta. É muito conveniente o controle da ramagem em altura, quer no sentido ascendente (não esquecer que se trata de uma semi-trepadeira) quer descendente (ao tocar no solo facilmente desenvolvem novas raízes),  mediante podas entre as florações. A limitar ainda a expansão lateral das raízes a partir das quais novos rebentos poderão surgir. Quanto mais cedo se iniciar o controle, tanto melhor. E, se tivermos de remover completamente a planta, veremos que não irá ser fácil. Uma solução possível não será a de a plantar num (grande) pote? Tudo ponderado, não é por as roseiras terem espinhos que deixaremos de as cultivar... 

Fotos de Outubro de 2014, na aldeia.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

NERIUM OLEANDER (ESPIRRADEIRA)


Cinco pétalas simples nas cores-base do branco, cor-de-rosa e vermelho coroam a porção inferior afunilada da corola que conduz aos órgãos reprodutores da planta. Cada pétala apresenta um apêndice dividido em lóbulos. Destaque ainda para o pequeno cone amarelo que emerge ao centro formado pelas anteras com os seus apêndices munidos de pelos, voltado para o estigma.  São cinco os estames e dois os carpelos soldados. 


São hoje em dia muito comuns as flores dobradas e de várias outras cores. Mas as primeiras são sobremaneira mais acessíveis à observação. 


O oleander foi a primeira planta a despontar no solo contaminado de Hiroshima após a deflagração da bomba atómica em 1945. Daí ser a flor oficial de Hiroshima.


A espirradeira está munida de um arsenal químico de defesa muito bem conseguido capaz de dissuadir qualquer potencial agressor. Tratando-se de uma planta de floração tão insinuante e das mais difundidas no mundo, acaba por representar um risco de vida. Qualquer parte da planta, ainda que ingerida em quantidades mínimas, é tóxica para mamíferos e pode ser fatal. A simples manipulação descuidada (usar luvas, não levar as mãos aos olhos e, findos os trabalhos, lavá-las com sabão) pode desencadear um processo de envenenamento. Felizmente que ao simples toque com a língua se desencadeia uma forte reacção ao amargo. Também se deve evitar a queima, tendo em conta a possível inalação dos fumos da combustão. Para ver e não tocar. Atenção às crianças!

Fotos de fins de Setembro de 2014.