sábado, 5 de julho de 2014

SALVIA MICROPHYLLA (SALVA, BABY SAGE, SAUGE à PETITES FEUILLES, SALVIA ROJA)

 

Descendo a encosta, cruzamos vários riachos que se perdem por entre a vegetação cada vez mais densa. Visíveis um ou outro tanque aberto transversalmente ao sentido das linhas de água por onde entram para, transbordando, logo seguirem  retomando o leito escavado nas dobras da vertente. Um deles - informam-nos - foi lavadoiro público até que o actual fosse construído bem no centro do povoado. Os demais foram usados na rega dos pequenos socalcos. Presentemente nenhuma destas áreas é cultivada. A vegetação espontânea tira partido.


Sobre este fundo, em local fresco, sombrio, deparo com inesperadas flores à beira do caminho, em vermelho-brilhante. De pedicelo curto seguido de cálice em forma de taça verde-clara que suporta a corola. Tubo, na primeira parte da corola e no seu interior mais fundo, o ovário. Na foto, de perfil, o lábio superior que especialmente protege o estilete e estigma até à maturação e o lábio inferior, espécie de pista de aterragem para insectos. Destacando-se ligeiramente do lábio superior, é possível verem-se as pontas do estigma: uma parece um dente afiado na boca de víbora e a outra está voltada para trás.


Aquipatenteiam-se  os lábios de frente para nós. No plano inferior os lóbulos são de tamanho maior e cor mais viva.


Pequenas folhas opostas, ovadas, levemente serrilhadas.
Fiquei surpreendido por encontrar esta salva fora do espaço dos jardins. É uma planta que em natureza pode ser encontrada no Arizona (EUA) e em algumas montanhas do México. Na Serra da Lousã é espontânea ou vestígio de planta ornamental cultivada em pequenos jardins ou à beira dos canteiros?  

Fotos de Junho de 2014, Gondramaz, Serra da Lousã.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

ARQUITECTURA POPULAR. DETALHES de PORTAS.


Subimos até aos 600 m de altitude relativa. Estamos agora à entrada duma aldeia de cara lavada, reabilitada, higienizada, diria asséptica. Uma reinterpretação da arquitectura rural no espaço serrano que respeita a integridade do sítio e satisfaz as necessidades do nosso tempo.  Como gostaríamos de ficar uns dias! Aplaudimos. Mas, nada de ilusões: são hoje três, apenas, os residentes habituais. 


Hoje, é espaço de relaxamento, ausente o contexto que a elegeu e a justificou para perdurar no tempo: o confronto entre homem e natureza.  Manifestamente, em Junho estamos fora de época.


Por junto, encontrámos dois pedreiros reforçando as fundações de uma casa em reconstrução. E só à despedida voltámos a cruzar com outra pessoa, uma simpática residente que se mostra feliz vendo-nos passar. Feita uma primeira avaliação do conjunto urbano e antes de tomarmos o trilho de pé que conduz à cascata (10 min), ao Penedo dos Corvos (10 min), a Espinho (2 h 30 min) ou à Chapinha (3 h 30 min), demoremos nos detalhes.


Evocação de ancestralidade rural que me é familiar.  Uma pequena peça de madeira protege o buraco da fechadura.


Puxador em redondo.  


Postigo interior.


Batente.

Fotos de Junho de 2014, em Gondramaz, Serra da Lousã. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

PÉROLAS POR UMA MANHÃ


Gramíneas. Oferecem-se à vista por tudo quanto é sítio e, no entanto, passam despercebidas, mero pano de fundo, muitas vezes pisadas sem remorso. 


Mas nesta manhã pardacenta e molhada vestiram-se especialmente para nós, irresistíveis, com o seu rico ornamento de pérolas. Impossível ficar indiferente. Pelo caule fino, um trepador dourado faz pausa. Ouve: "Acima, acima, gageiro/ Acima ao tope real!" Não aparenta pressa...


De aspecto simples. No entanto, demasiado complexas, nada fáceis de conhecer por um passante desprevenido.


Que me seja perdoada a ousadia: Polypogon monspeliensis? Ficaria tranquilo se uma alma condescendente quiser estender o conhecimento desta beleza a um não iniciado. Antecipadamente agradeço.  

Fotos de Junho de 2014, na vertente ocidental da Serra da Lousã.

domingo, 29 de junho de 2014

CAMPANULA LUSITANICA (CAMPAINHAS)


De céu carregado, a manhã promete chuva. Caminhando na direcção do fundo do vale, sucedem-se os aguaceiros  intermitentes, felizmente sempre muito breves. Respira-se uma atmosfera deveras húmida mas morna. Aqui e ali aumenta a mancha dos fetos. Não estamos longe da cascata.


Um manto de herbáceas espreita as margens da estreita vereda em declive e protege os solos da erosão.  Apesar do avanço da manhã, a fraca luz natural não encoraja a abertura das flores azul-violeta  das campainhas. Nesta atitude de espera, realce para  a disposição em estrela das 5 sépalas livres patenteada na primeira foto.  A corola fechada em curto tubo cilíndrico articula-se harmoniosamente com o cálice estreito e o pedicelo longo e fino, levemente ondulado  que os suportam.


Subimos a encosta fronteira, já sem os chuviscos. Os fetos ficaram para trás. Agora a vegetação ancora mais profundamente no solo duro e resiste aos efeitos do vento e ao ambiente ainda húmido mas não tanto como em baixo. Diminuem as plantas de caules tenros. Predominam os arbustos de caules lenhosos ou semi-lenhosos. Inesperado é o encontro com azevinho em abundância.  


Por aqui outras campânulas já estão abrindo - 5 lóbulos - num pequeno sino.   Do interior espreitam estilete e estigma na cor branca (3ª foto).
A campainha é uma espécie anual, frequente na região mediterrânica, portanto não exclusiva de Portugal.  O fruto é uma cápsula.

Fotos de Junho de 2014, serra da Lousã, concelho de Miranda do Corvo.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

CAMPANULA ERINUS (CAMPÂNULA, CAMPANULA, CAMPANULA MINORE, CAMPANULE à petites fleurs)


Ano após ano, está de volta. Inserida numa fenda do pavimento cimentado da eira onde a exposição directa à radiação solar potencia as temperaturas destes dias luminosos, a frágil herbácea é um espanto de resistência à adversidade.  À primeira vista as flores apenas entreabertas, não se deixariam identificar por campanuladas.


Caules finos e longos, uma ou mais vezes ramificados, podem alcançar os 35 cm de altura. Abundam os pêlos: ao longo dos caules, nas folhas, no cálice e até os há em parte da corola.  


Flores na axila das ramificações, minúsculas, até 5 mm. Corola  em forma cilíndrica, campanulada, de 5 pequenos lóbulos, cor esbranquiçada ou levemente azulada. 


Cálice estrelado de 5 sépalas, já no final da floração. Lóbulos mais compridos do que largos. No canto superior esquerdo subsiste o cálice na ausência das pétalas.

Fotos do início de Junho de 2014, na eira do quintal.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

RESEDA PHYTEUMA (RESEDA-MENOR, CORN MIGNONETTE, RAMPION MIGNONETTE, RESEDA SILVESTRE, RÉSÉDA RAIPONCE, RESEDA SILVATICA)



O povoado desenvolve-se em espirais. No plano mais elevado está o pólo, centro profundo e nele a igreja. A partir do adro aberto, podem tomar-se várias direcções seguindo as diversas ruas que logo se repartem em ruelas, umas sem saída, outras ligando a distintos bairros não aparentes a estranhos. 


A habitação tem a fachada sobre uma das artérias principais. O acesso ao primeiro andar faz-se por uma escada interior, invisível da rua. Ao corpo da casa segue-se um pátio  de muros altos, largo ao nível médio para estreitar de seguida. É preciso entrar nesse gargalo fundo para perceber que deixamos aí o espaço privado e estamos novamente a pisar o empedrado de uma estreita viela ladeada de outras moradias ou de quintais protegidos pelos muros de lasquinhas de xisto e pedra rolada. Em coerência com a disposição geral do povoado, é uma verdadeira escapatória. 


O pátio é suficientemente amplo para acolher o forno de lenha protegido pelo telheiro armado em madeira e revestido a telha nacional, mesa e cadeiras e um espaço maior a descoberto com os seus bancos corridos de pedra, bordejado por plantas que crescem encostadas aos muros.   


De entre elas pude reconhecer várias de que dei conta neste portal, incluindo algumas numa série a que dei o nome de "Plantas em velhos muros". Estávamos em Junho de  2012, em Janeiro de Cima, uma das "aldeias do xisto" na margem esquerda do rio Zêzere. 


Sucede que, há dias, voltei às aldeias do xisto mas, desta vez, a Gondramaz na vertente ocidental da Serra da Lousã. E reencontrei, pendentes de velhos muros, as mesmas resedaceae que tanto me haviam intrigado dois anos antes. Lá estavam em flores pequenas organizadas em cachos, esbranquiçadas tornando-se amareladas na fase de declínio, com grandes pedicelos, de 6 sépalas. Das 6 pétalas, 4 são de limbo profundamente dividido em tiras estreitas que rodeiam os estames. As sépalas são acrescentes, isto é, continuam a crescer mesmo após a fecundação e até o fruto ficar maduro. As anteras são de cor  laranja.


Folhas basais inteiras, lineares espatuladas e alternas. Subindo nos caules iremos encontrar também folhas de 3 lóbulos. O fruto é uma cápsula pendente que abre por cima.

A planta não deixa de me intrigar. Comparem-se as 2 últimas fotos tiradas agora em Gondramaz com as demais obtidas no mesmo mês de Junho, em Janeiro de Cima. Vejam-se as tonalidades de umas e outras. Aqui, as cores quentes (nomeadamente, amarelo, laranja, vermelho) em gradações que se sucedem consoante o grau de maturação dos frutos, estão em harmonia com as cores naturais da pedra e parcialmente ausentes nas plantas que agora encontrei na Lousã. Tal circunstância terá a ver apenas com o relativo atraso de maturação neste ano ou tratar-se-ão de variantes da mesma espécie? Também é verdade que o material onde estão implantadas apresenta tonalidades bem diferenciáveis num e noutro lugar: bem mais alaranjado para os lados da Gardunha, mais neutro para a Lousã. Terá essa pigmentação influência na cor da planta? Antecipadamente agradeço as ajudas.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

SCROPHULARIA (ESCROFULÁRIA, FIGWORT, SCROFULARIA)


Uma berma funda, descuidada, ladeia a rua estreita que corta terrenos aráveis. De entre o pequeno silvado podem ver-se uma miríade de pequenas cápsulas, algumas em castanho pálido, sinal de maturação alcançada, outras ainda em verde. Só então nos apercebemos das inflorescências em panículas alongadas com pequenas flores manifestamente irregulares. E que inusitadas cores do vermelho-escuro ao púrpura! 


A flor assemelha-se a um elmo erguido num pedicelo curto. Cálice de 5 sépalas. Corola tubular-intumescida com 5 pétalas. Lábio superior com 2 pétalas, mais comprido do que o inferior provido de 3. Neste as pétalas laterais são direitas e a do meio é ligeiramente curvada para fora para facilitar a "aterragem e descolagem dos polinizadores. Sépalas e pétalas estão soldadas ao nível do primeiro terço a contar da base.


Destaque para o branco do traço arredondado de tecido escamoso que contorna superiormente as sépalas, sublinhado por idêntica curva em castanho-avermelhado. Nesta orientação, as pétalas do lábio superior assemelham-se a orelhas. Será a Scrophularia "auriculata"?


Anote-se a forma  em esquadria rectangular e a cor verde  com bordas avermelhadas dos caules, a mesma que também realça o recorte dentado das folhas. Veja-se ainda, a sua distribuição em oposição ao longo do caule cruzadas com outras mais pequenas, em roseta, na axila. A planta tem cerca de 1 a 1,50 m de altura. Os caules, no entanto, são ocos e quebram facilmente.


É hora máxima da radiação solar e do calor e, não obstante, pode observar-se o movimento contínuo dos insectos. Manifestamente, o seu contrato de trabalho não inclui o direito à sesta o que é deveras lamentável. Uma transgressão à regra da prudente recolha a penates  em hora de calma que este peregrino que vos escreve não deveria seguir (natureza mestra da vida?). Mas lá que valeu a pena...

Fotos de Junho de 2014, limite de Miranda do Corvo.