quinta-feira, 6 de março de 2014

PRIMAVERA, primeiros esboços. (FIRST SKETCHES of SPRING SEASON, PREMIÈRES ÉBAUCHES du PRINTEMPS)


Entre as duas aldeias estende-se a várzea inculta mas de rico potencial revestida todo o ano de ervas espontâneas.  No limite norte, à nova estrada sucedem-se um declive e os charcos, alguns permanentes. Muda o revestimento. Agora uma cortina vegetal anárquica de árvores e arbustos sobrepõe-se à longa mancha das ervas rasteiras: salgueiros, canas, choupos, plátanos e rebentações bravas de árvores de fruto, entre outras.  


Em minoria, mas também há arbustos e árvores de folha permanente: loureiro, folhado (viburnum tinus) e eucaliptos. Na foto um rebento bravo de pessegueiro em flor, vestígio dos tempos não muito recuados em que todo este solo era aproveitado ao milímetro com culturas. 


A novidade está, porém, nos primeiros. Em fase de abrolhamento, a pouco e pouco estão a surgir os rebentos. Com mágica paleta, a natureza distribui cor a caules, ramos e folhas. De momento, em primeiro esboço.  Definitivamente nos meses próximos (mas haverá alguma coisa de definitivo para a natureza?): aqui na aldeia quando os cachos de uvas iniciam a maturação dizemos "chegou o pintor!", mas a tela está em dinâmica permanente...


Houve árvores caídas com os temporais de inverno. Outras vidas novas não apenas vegetais, surgirão na primavera. Algumas à custa desses velhos troncos derrubados, sempre em transformação.  Como diria alguém: é a vida!

Fotos de ontem e de fins de fevereiro de 2014, na aldeia.

terça-feira, 4 de março de 2014

REFLEXOS, ÁGUA (REFLECTIONS IN THE WATER, REFLETS DANS L´EAU)


Reflexos de inverno ao entardecer.


Divergindo?


Navegação de recreio com vento fraco, ondulação ténue sem rebentação.

Fotos de Fevereiro de 2014, de um lago em parque privado na aldeia.

domingo, 2 de março de 2014

Parce que les fleurs sont éphémères, flores de camélia.


 Ma fleur est éphémère, se dit le petit prince,


et elle n,a que quatre épines, pour se défendre contre le monde!


Et je l,ai laissée toute seule chez moi!

Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Prince, Chapitre XV.

(A minha flor é efémera, disse o pequeno príncipe, e ela não tem senão quatro espinhos para se defender do mundo. E eu que a deixei sozinha em casa!)

Fotos do passado sábado no quintal-jardim do casal M.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

MAGNÓLIA, flores


Aproveitando a prometedora aberta, primeiros passos da caminhada a pé. No jardim fronteiro da casa da amiga e vizinha L., a magnifica magnólia em flor convida à irrecusável reverência. Tal como se espera dos polinizadores, a nossa atenção é inevitavelmente conduzida para o centro da flor. Na base das pétalas, inúmeros estames laminares  em tons rosa-avermelhado assentes num receptáculo alongado, rodeiam o tufo mais serrado dos carpelos livres de cor amarelada.


Pétalas e sépalas, respectivamente de 6 e 3 peças, confundem-se. Aqui, na flor em primeiro plano, as sépalas situam-se em plano inferior ligeiramente recurvadas para os lados e para baixo ao contrário das pétalas claramente voltadas para cima. Tendo em conta a aparente indiferenciação melhor as designaríamos por tépalas.


Na metade esquerda da foto, botões florais fechados numa bráctea. O mais comum nas flores é serem sépalas a envolver as pétalas. 


Por ora, há que retomar o passeio: várzea até ao parque, subida pela Mata ou atravessamento do parque, avenida da estação e regresso pelo Espinhal. Uma hora e meia incluindo as pausas para observar a natureza e ensaiar algumas fotos. Até já, vizinhos!

Fotos de 22 de Fevereiro de 2014, na aldeia.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

À SOMBRA DA CAPELA DE NOSSA SENHORA DA PENHA DA FRANÇA, divagações.


Há dois números atrás apresentava imagens de um exemplar de Phytolacca dioica (Bela-Sombra) inserido em ambiente mediterrânico. Referi a propósito um outro exemplar no adro da igreja edificada na aldeia no século XVIII que povoou a imaginação da minha infância.  


Entretanto, ocorreu lembrar-me do adro da Capela de Nossa Senhora da Penha da França, Vista Alegre, Ílhavo - local muito da nossa eleição - e do jardim e parque que a ladeiam. 
A Capela é dos finais do século XVII. Mais recentemente foi acrescentada com as duas torres sineiras mandadas construir segundo os planos iniciais, pelo fundador da Vista Alegre.
Em comum a escolha, entre outras, da Bela-Sombra para decorar os respectivos adros.


Que sei eu da história de qualquer deles? A bem dizer, nada. Mas ocorreu-me testar a hipótese da contaminação por modas. Nessas épocas muitos navios chegaram a Portugal carregados de árvores nativas de outras paragens para a decoração dos jardins de palácios ou de grandes casas ou de jardins botânicos, segundo modelos já ensaiados em cortes mais requintadas

A outra escala, o "jardin de curé", jardim do cura, era um misto de jardim, vinha e horta na proximidade do templo, para cultivo de flores necessárias para os altares, da vinha para o vinho de missa, a par com cultura de legumes, frutas e plantas medicinais.  Tudo apenas útil.
Com o tempo passou a diferenciar-se o valor prático do meramente lúdico.


Na nossa paróquia, essa diferenciação manifestava-se a par no passal e no adro. Situado a nascente do templo e da residência do pároco, aquele sobreviveu à voragem dos apetites de liberais e republicanos. Foi área reservada para horta, vinha e pomar e também área de repouso e meditação. Hoje ao abandono, parece já não ser desejado pois, todos, sacerdotes, leigos ou nem uma coisa nem outra, prescindem de agricultar e preferem "comer da loja". 

Naqueles tempos, diziam os de condição rural (condição que me é comum): " olha! aquele, come da loja: não vai longe...". Prosperava então, modestamente, a "loja do Ti Antoino". Hoje a condição de "comedor de loja" sustenta qualquer das catedrais de consumo do Tio Belmiro e afins com a vantagem, antes nunca sonhada, de nele a clientela poder simultâneamente abastecer-se, repousar e, quiçá, meditar...


Antes também usado para sepultamentos, sobrava o adro da igreja para árvores apenas decorativas, impensável que era aproveitá-lo para plantação de outras espécies dado o historial. Além da Bela-Sombra pelos vistos em voga à data da plantação, havia ciprestes, um dos quais ainda resiste, palmeiras, freixos, um monumental lódão bastardo (celtis australis) a que, sabe-se lá porquê, chamávamos de "morangueiro" e mais prosaicamente uma laranjeira azeda cujos frutos serviam todo o povo e eram procurados para tratar as frieiras - uma doença provocada pela exposição ao frio e humidade que atacava pés e mãos e que se manifestava por inflamação e prurido e verdadeiramente só curável com "os pós de Maio". Tenho uma vaga ideia de que as folhas também eram usadas para chás. 

Na foto, ao fundo, ladeando a Capela parte do bairro operário, plátanos e outro exemplar de bela-sombra. Na segunda das fotos vê-se um grupo em peregrinação pelo jardim de buxo em direcção ao notável Museu da Vista Alegre.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

PISTACIA TEREBINTHUS, (TEREBINTO, CORNALHEIRA, CORNICABRA, PISTACHIER TÉRÉBINTE)


Pequena árvore ou arbusto originário do Médio Oriente de tronco acinzentado, brota em solos pobres entre penhascos com alguma humidade e assim resiste à seca estival nas serranias de Portugal e de Espanha. Prefere a exposição ao sol e aguenta bem os frios e geadas de inverno. As pequenas flores em tom avermelhado surgem na primavera e organizam-se em cacho (panículas). 


O que vemos na foto não é um fruto mas uma galha (de cerca de 20 cm de comprimento) que é a mutação operada pela planta em resposta à picada de um pulgão que nela abriga os ovos, processo semelhante ao que tem lugar  nos sobreiros, azinheiras e carvalhos dando lugar aos conhecidos bugalhos.


Os frutos são drupas de forma ovóide e do tamanho de ervilhas. São alimento para alguns pássaros que retribuem distribuindo as sementes pelo solo. A planta é dióica: facilita a multiplicação a existência nas proximidades de exemplares de um e outro sexo. O odor muito característico das folhas, frutos e caules do terebinto não convida a aproximação do gado o que de algum modo a preserva da voracidade dos rebanhos. 


Folhas alternas, compostas de 9 folíolos de cor verde, duros, com nervuras acentuadas. A folha é caduca. No outono a folha torna-se de cor amarela ou vermelha. 


A madeira do terebinto é dura e muito apreciada pelos entalhadores. É ainda usada em cabos de canivetes. Em arbusto liberta uma resina que tem várias aplicações quer medicinais quer na indústria química, nomeadamente em diluentes. A essência de terebentina era feita com a seiva da planta.

Do verdadeiro terebinto - pistacia vera - saem frutos comestíveis, pequenas amêndoas que se levam a torrar, usadas como condimento na cozinha ou na composição de bolos.

Fotos de setembro nas montanhas do mediterrâneo ocidental(província de Alicante - nos 586 m)




sábado, 22 de fevereiro de 2014

PHYTOLACCA DIOICA (BELA-SOMBRA, BAOBÁ-DAS-PAMPAS, OMBÚ, ELEPHANT FOOT)


Na nossa aldeia, no adro da Igreja, conheci uma destas estranhas árvores a que chamávamos "árvore podre" ou a árvore "pata de elefante" e era geralmente confundida com o embondeiro.  Gerações e gerações de crianças brincaram à sua volta ou trepando pelo curto tronco. Os adultos procuravam-na como refúgio do sol nos verões quentes. 


Bela inflorescência em cacho, entre primavera e verão: as pequenas flores são melíferas. Na bela-sombra, como o seu nome indica (dioica), os sexos encontram-se separados em indivíduos diferentes. 

Folhas em verde escuro, glabras, elípticas.


Chamávamos-lhe "podre" não porque se encontrasse em decomposição mas porque, na base, tronco e raízes nodosas eram ôcos (pelo menos em parte) o que podíamos constatar através de uma grande abertura.  Que idade teria?   E que grande era: uma envergadura da base de pelo menos o triplo do tamanho da base da árvore nas fotos. Finalmente adoeceu e nem os cuidados que depois lhe foram prestados a puderam salvar. 
É originária da América do Sul, particularmente das pampas da Argentina e Uruguai e espalhou-se pela região mediterrânica que a adoptou com sucesso. Pode alcançar os 20 m de altura.